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Opinião

O perigo da zona de conforto para o profissional de Compliance.

02/10/2020


O profissional que atua na área de Compliance enfrenta demandas diárias que fogem dos seus conhecimentos técnicos, como leis nacionais e internacionais, diretrizes de autoridades nacionais ou estrangeiras, políticas, procedimentos ou portarias internas, sendo muitos desses documentos redigidos e revistos pelo mesmo profissional. Geralmente, o que não pode ser adquirido apenas pelo estudo são demandas que exigem conhecimento sobre a cultura da empresa, gestão de pessoas e projetos, e o trato com as demais áreas — sejam elas áreas de negócios da empresa ou divisões internas do Compliance  — para a busca em comum de uma solução.


As áreas de Compliance vêm ganhando posição dentro da estrutura de governança corporativa das empresas quando compreendem seu papel na organização, adaptando-se à cultura e criando espaço na agenda dos líderes para os seus reportes e comunicações. Colabora com este avanço a demonstração de consonância entre os produtos internos do Programa de Compliance — incluindo monitoramento contínuo — com as demais áreas da empresa, principalmente: Auditoria, Vendas, Suprimentos Diretos e Indiretos, Inteligência de Mercado, Contas a Pagar e a Receber, Marketing, dentre outras. Tais áreas (com exceção da Auditoria) são chave, pois fazem parte de segmentos que prospectam e mantêm relacionamento com clientes e fornecedores, além de ter considerável exposição a tentativas de influência imprópria em contratos. Ao mesmo tempo, servem como fonte para que os responsáveis pelo Compliance adquiram os insumos necessários ao desenvolvimento de políticas e procedimentos, bem como para que os reportes e comunicações à liderança tenham seu conteúdo embasado em conhecimentos práticos.


Nesta esteira, percebe-se, por exemplo, a necessidade de os responsáveis pela área de Compliance estarem presentes na rotina da empresa e de entenderem a forma como esta lida com negociações e campanhas de venda, desde a prospecção. Muitas vezes, a fase da negociação é de extrema importância para a atividade do Compliance, tendo em vista que é justamente nela que se deve evitar a interpretação de que, na verdade, a atividade seria uma tentativa de influenciar de forma imprópria a tomada de uma decisão contratual. Por essa razão, recomenda-se nestes casos que os engajamentos apresentem os valores mais razoáveis possíveis e que estejam em consonância com o propósito do negócio da empresa.


Outro exemplo são os Patrocínios: se alguém da área de Compliance recomendar o prosseguimento de um patrocínio sem saber que o patrocinado está em fase de negociação ativa com a empresa ou participando de BID — o que reforça a importância de se ter um canal aberto com as demais áreas da empresa — isso poderá gerar questionamentos sobre favorecimento em contrato por conta do valor investido. A mesma problemática se aplica a convites para eventos, ofertas de hospitalidade, brindes e doações. É de suma importância que haja contato entre as áreas de operação e as demais áreas dentro do Compliance.


Válido dizer que, nestes casos, os problemas geralmente não ocorrem em interações pontuais, mas naquelas que se estendem no tempo e que acabam gerando um conjunto de pequenos engajamentos que, ao decorrer de certo período, representam grande quantia. Portanto, se aproximar das pessoas que exercem as atividades de exposição e participar do dia a dia dessas áreas, se familiarizando com os stakeholders mais provocados, é essencial para a atividade do profissional de Compliance além de ser uma forma de exercitar a saída da zona de conforto.


Deixando a interação com as demais áreas da empresa de lado e focando nas áreas de Compliance, observa-se que, com a evolução dos processos e dos controles implementados e gerenciados pela própria área de Compliance, o profissional que atua e executa essas rotinas pode entrar em uma perigosa zona de conforto. Não é incomum vermos Departamentos de Compliance divididos pelas três tão conhecidas torres — prevenção, detecção e resposta —, situação em que o mesmo time atua nas mesmas rotinas desde a implementação do programa, sem experimentar as dores das outros.


Nota-se o mesmo em relação aos profissionais que atuam em processos que têm em comum controle de interação com clientes, mas não se comunicam entre si. É importante que aqueles que estejam cuidando da análise reputacional e certificação dos clientes mantenha contato com os que têm atribuições de controle de hospitalidade e brindes, por exemplo. Muitas vezes, os impeditivos detectados na análise reputacional acabam por pautar o tipo de oferta que a empresa pode fazer àquele cliente ou, dependendo das circunstâncias, se há algum tipo de oferta que realmente pode ser realizada.  


De certo, as funções cada vez mais poderão ser lapidadas e evoluir com o tempo de execução. Porém, não são apenas horas de atuação na mesma cadeira que criarão um profissional mais completo e com uma visão global da área de Compliance. É necessário observar, seja como líder ou liderado, se a função que está sendo exercida também está contribuindo com o desenvolvimento do profissional e se não é o momento de buscar novas experiências no mesmo Departamento.


É interessante, por exemplo, que o profissional que normalmente faz a parte preventiva – como a revisão das políticas e procedimentos, as comunicações e treinamentos internos e as resposta às consultas sobre brindes e presentes – possa ter, em determinado momento, maior contato com o canal de denúncias e suas investigações, ou até mesmo sobre os assuntos tratados no Comitê de Ética e Integridade.


Remover os profissionais de um âmbito que já dominem e colocá-los sob um escopo completamente diferente faz parte do desenvolvimento pessoal de cada um, pois trabalhar com Compliance não pode ser limitado apenas a uma atividade ou bloco para a tomada de decisão. É preciso que o profissional tenha um conhecimento “macro” do que cada posição ou rotina realiza para que, cada vez mais, os direcionamentos seguintes sejam corretamente escolhidos.


Ainda nesse exemplo, tendo o profissional experimentado ampla vivência na área de detecção da empresa, será capaz de trazer muito mais insumos para a revisão das políticas existentes ou para a comunicação interna sobre as ações de Compliance, bem como poderá enriquecer o portifólio de exemplos nos treinamentos.


O mesmo raciocínio pode ser aplicado para quem atua com Due Diligence ou investigações internas. Tendo experimentado como é o processo de elaboração de uma nova política interna ou a importância de um treinamento com a mensagem correta, a visão sobre um caso ou empresa que será pesquisada ou investigada poderá ser mais abrangente. Até mesmo a forma de demonstrar os pontos de atenção encontrados poderá ser incrementada por fundamento e correlação com as diretrizes internas.


É importante que haja o engajamento da equipe responsável pelo monitoramento de forma contínua e em todas as interações problemáticas identificadas nas demais áreas — Relações com Clientes, Due Diligence de fornecedor, Canal de Denúncias, etc. Ainda que a função principal da equipe de monitoramento seja a de verificar se os controles são eficazes, estes profissionais acabam por exercer, por consequência, o último papel de detecção, apresentando recomendações fundamentais para melhoria, o que demonstra que a comunicação e a sintonia são indispensáveis de uma ponta a outra do Programa de Compliance.


Por mais cursos, certificados e até certa vivência dentro da área que um profissional possua, é necessário buscar novas ferramentas de trabalho, como treinar o sentimento de “dono” e responsabilidade por cada tarefa (ownership), buscar técnicas de gestão e resolução de problemas, como o PDCA (Plan, Do, Check e Act), e dedicar-se para conhecer a cultura da corporação por meio de interações com outras áreas; sem falar no investimento em idiomas, que muito facilita a troca de experiências com profissionais de outras nacionalidades.


É essencial saber o local em que o Compliance está inserido e qual a expectativa das demais áreas sobre ele, especialmente porque muitas empresas enfrentam desafios culturais em seus organogramas. Ter esse tipo de conhecimento ou vivência multidisciplinar entre as rotinas da área de Compliance pode ajudar (e muito) na resolução e no trato das eventuais questões e projetos, independentemente da formação acadêmica do profissional.


Contar com apoio externo especializado ou criar grupos de trabalho interno (ou os dois), além da comunicação e do entrosamento, tanto dentro do Compliance quanto com as demais áreas da empresa, pode contribuir com a busca por deixar a zona de conforto e acrescentar conhecimento sobre as rotinas implementadas. É necessário, cada vez mais, buscar inovações, tecnologias e novas formas de se fazer o que já vem sendo feito para a evolução da área como um todo e do próprio profissional.


Assim, buscando cada vez mais novas experiências — seja atuando nas áreas de negócio da empresa, seja caminhando pelas três torres do Programa de Compliance e suas subdivisões, ou até mesmo fora da área de atuação do Compliance —, entendendo a cultura em que a área está inserida e pedindo ajuda se for preciso, dificilmente o profissional do Compliance se estagnará em zona de conforto, podendo ser um exemplo para o seu time, independentemente de estar ou não em uma função de liderança.



Por: Bruno Galvão Ferola e Victor Gregorio do Prado Polaino.